Se está por dentro do universo cripto é provável que já saiba de que se trata este artigo. Porém, se não sabe, vai ficar a saber se ler atentamente até ao final. As criptomoedas estão a proliferar no Brasil e prova disso são os 200 bilhões de reais que, segundo o Banco Central, já foram transacionados neste criptoativo. No entanto, grande parte é movimentada através de stablecoins que são, nada mais nada menos, criptomoedas, porém com um pequeno twist.
Elas não são tão voláteis como outras criptomoedas. Se olhar para o gráfico btcusdt, não precisa de ser um especialista para ver muitas subidas e descidas. Isso representa o valor que a bitcoin teve este ano. Pode ver que atualmente ronda os 87 mil dólares, mas não há muito tempo, já esteve perto dos 130 mil dólares. As stablecoins, dependendo do tipo de investidor que for, são especiais por isso mesmo, já que se mantêm bastante estáveis.
Por que as stablecoins são tão populares no Brasil?
O crescimento do uso de stablecoins no Brasil não é apenas perceção — é estatística. Entre 2021 e 2025, o número de utilizadores aumentou cerca de 300%, segundo levantamentos da B3 em conjunto com a Associação Brasileira de Criptoeconomia. Este crescimento acelerado não aconteceu por acaso.
Um dos principais motivos é a proteção contra a inflação e a desvalorização do real. Embora o Brasil não viva uma hiperinflação, o histórico econômico faz com que muitos brasileiros procurem alternativas para preservar poder de compra. As stablecoins indexadas ao dólar funcionam como uma espécie de “dólar digital”, acessível, rápido e sem a burocracia tradicional do sistema bancário.
Outro fator decisivo é a facilidade de envio e recebimento de remessas internacionais. Freelancers, criadores de conteúdo, profissionais de tecnologia e até pequenas empresas utilizam stablecoins para receber pagamentos do exterior em minutos, com custos inferiores aos de transferências bancárias internacionais ou serviços tradicionais de remessa.
Além disso, o uso em pagamentos digitais e comércio eletrônico cresce de forma consistente. Plataformas e empresas brasileiras já integram stablecoins nos seus serviços. O Mercado Bitcoin, por exemplo, movimenta milhões de reais por mês com stablecoins, enquanto o PicPay passou a oferecer funcionalidades ligadas a criptoativos, incluindo tokens estáveis, aproximando ainda mais o público geral deste tipo de tecnologia.
No fundo, as stablecoins resolveram um problema prático: permitem usar blockchain sem ter de lidar com a montanha-russa emocional (e financeira) da volatilidade extrema.
Regulamentação das stablecoins no Brasil
Com o crescimento acelerado, veio também a atenção dos reguladores. Em 2025, o Banco Central do Brasil avançou com a Resolução BCB nº 521/2025, que trouxe maior clareza sobre o enquadramento das stablecoins, sobretudo as referenciadas em moeda estrangeira.
Na prática, operações com este tipo de stablecoin passaram a ser tratadas como operações de câmbio, ficando sujeitas a regras de compliance, reporte e à incidência de IOF de 3,5%, dependendo da natureza da transação. Para muitos utilizadores, isto representou um aumento de custo, mas também uma maior previsibilidade jurídica.
Paralelamente, o Projeto de Lei 4.308/2024 estabeleceu exigências mais rigorosas para emissores e plataformas:
- Lastro integral, com 100% de garantia em ativos reais
- Auditorias trimestrais independentes
- Transparência total sobre as reservas
- Identificação obrigatória de todos os utilizadores
O impacto é duplo. Por um lado, aumenta significativamente a segurança, reduz riscos sistémicos e afasta projetos pouco confiáveis. Por outro, traz mais complexidade operacional e custos adicionais para empresas e utilizadores, especialmente os de menor dimensão.
Oportunidades e desafios para o mercado
Apesar das exigências, o potencial continua enorme. Projeções da CVM e da Associação Brasileira de Criptoeconomia indicam que o volume de transações com stablecoins no Brasil pode chegar aos 300 mil milhões de reais até ao final de 2026.
Entre as principais oportunidades estão a integração com o sistema bancário tradicional, a expansão dos pagamentos digitais e o surgimento de novos serviços financeiros híbridos, que combinam blockchain e finanças tradicionais. Stablecoins podem tornar transferências instantâneas, baratas e globais algo banal no dia a dia.
No entanto, os desafios não desapareceram. Mesmo com regulação, fraudes e golpes continuam a existir, muitas vezes explorando o desconhecimento dos utilizadores. Além disso, a falta de educação financeira e digital ainda expõe investidores a riscos desnecessários, desde perdas por erros operacionais até esquemas fraudulentos disfarçados de projetos legítimos.
As stablecoins deixaram de ser um nicho dentro do universo cripto para se tornarem uma peça central do ecossistema financeiro digital brasileiro. Com crescimento acelerado, adoção prática e um quadro regulatório em consolidação, representam uma inovação que vai muito além da especulação.
Se o equilíbrio entre inovação, segurança e inclusão financeira for bem executado, o Brasil tem tudo para se tornar uma referência regional no uso e desenvolvimento de stablecoins. Não como substitutas do sistema financeiro tradicional, mas como uma ponte entre o mundo bancário clássico e a nova economia digital, cada vez mais integrada e acessível.

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